Desabafo de um estudante de direito LGBT em intercâmbio em Portugal

Este texto estava sendo planejado há um tempo e seria postado quando eu voltasse pro Brasil, mas a noite de ontem fez com que ele saísse mais cedo.

Quando decidi vir para o intercambio, um amigo meu (que já havia feito intercâmbio aqui antes) me avisou que os europeus são bastante conservadores em relação a homossexualidade. Isso me surpreendeu muito, já que nossa cultura eurocêntrica e branca nos faz enxergar a Europa como o lugar perfeito para todos, que atingiu o “ápice da evolução”, nos impedindo de ver o Brasil como o grande país que ele de fato é. Quando ele disse isso, preferi acreditar que ele estava errado e que tudo ia ficar bem. Ainda assim, pesquisei informações que confirmassem ou negassem o que ele tinha dito. Descobri que, aqui, a homossexualidade era crime até 1982, tipificado como “prática de vícios contra a natureza”. Mas li também que Portugal atualmente permite o casamento gay, a adoção de crianças por casais homossexuais e que Lisboa, apesar de ser a capital de um país conservador, sua população tem a cabeça mais aberta em relação ao resto do país. Fiquei (um pouco mais) tranquilo.

Fonte: http://desafinado-blog.blogspot.com.br/2015/02/a-homofobia-em-campo.html

Fonte: http://desafinado-blog.blogspot.com.br/2015/02/a-homofobia-em-campo.html

Quando cheguei, percebi que, infelizmente, meu amigo não estava errado. A homofobia aqui é institucional e generalizada. Em dois meses, sofri mais homofobia do que senti desde que saí do armário no Brasil. Não há um lugar em que eu me sinta à vontade para ser quem eu sou. Não me sinto à vontade para falar com as pessoas. A homossexualidade aqui é vivida nos guetos, nos inferninhos, nos becos, no escuro, longe dos olhos conservadores da heterossexualidade compulsória que vigora no território português. Se você sai com um cara português, não pode andar de mãos dadas com ele, não pode beijá-lo na rua, não pode olhá-lo diferente. É gritante como eles têm medo. Percebendo isso, comecei a ter um pouco mais de cuidado.

Mas ontem foi o estopim. Fui encontrar meus amigos gays (brasileiros) no Bairro Alto, bar boêmio da cidade, como faço todas as sextas-feiras. Decidimos nos encontrar no Tacão Grande, barzinho/baladinha LGBT que fica perto do Miradouro São Pedro de Alcântara, e de lá partimos para conhecer outros barzinhos LGBT da cidade. Até que em um momento da noite, paramos numa rua para comprar bebida. Naquela rua tinha uma sauna gay, um bar reconhecidamente gay e um outro bar que eu não conhecia, mas que tinha uma galera LGBT na porta. Pensando estar à vontade naquele ambiente, beijei um rapaz na rua. Até que um copo de bebida nos atingiu.

O beijo parou e eu fiquei em choque. Não, aquilo não podia estar acontecendo. Sentia o gelo e o limão do copo escorrendo pela minha cara e o meu pescoço, enquanto ouvia risadas e gritos. Olhei em volta e uma rodinha se abriu. Todos olhavam pra gente. Não, aquilo não podia estar acontecendo. Levei um tempo para entender tudo aquilo. O segurança que estava na porta do bar não fez nada, as pessoas em volta não fizeram nada. Aquilo era normal. Errado estava eu em fazer aquilo naquele lugar hipoteticamente gay.

Ficou o sentimento de revolta, de humilhação, de impotência. Nunca passei por isso no Brasil e, mesmo que passasse, a repercussão seria diferente. É perturbadora a naturalização. Ninguém discute isso. Não há o menor tato com a pauta minoritária, nem por parte da sociedade em geral, nem por parte da academia. Minha faculdade tá repleta de eventos sobre arbitragem internacional, direito financeiro, direito comercial mas ninguém discute direito LGBT ou direito da mulher (aliás, machismo também tem aos montes. Racismo então…). Ou quando o faz, faz naqueles eventos hipócritas de proteção internacional dos direitos do HOMEM (isso mesmo, não é direitos humanos, é direito do homem). Você ouve da polícia que os donos de bares têm autonomia para selecionar pessoas que vão entrar em seus espaços e não há nada que possa ser feito. É a nítida expressão da hipocrisia do liberalismo: você tem a liberdade de ser o que quiser, mas você também tem que aguentar a liberdade que o outro tem de te oprimir, de te rejeitar, de ignorar a tua existência. A todo tempo, seu corpo é um objeto passível de análise, e é ele quem vai determinar se você pode ou não adentrar nessa sociedade hipoteticamente livre. Se você é homem, europeu, branco, e hétero, você tá dentro. Caso contrário, ou pague ou aguente as consequências, pois essa liberdade não é pra você.

Depois que isso aconteceu, pessoas tentaram me acalmar dizendo que é normal, é uma outra cultura, que não estávamos numa rua gay (como não? só tinha bar gay), sugerindo que eu teria que entender o ocorrido. De fato, é uma cultura bastante retrógrada. O Brasil está longe da perfeição, mas está anos-luz à frente da Europa nessas questões. Mas me recuso a naturalizar essa violência, a aceitar como normal. Me recuso a ter que voltar novamente pro armário. E vou levar quantos copos na cara for preciso pra não ter que me sujeitar a essa cultura escrota daqui.

Beijos de luz.

14462911_10208625639935816_5087076878525046229_nErick Maués

Graduando em Direito pela Universidade de Brasília
Estudante de intercâmbio na Universidade de Lisboa

Leave A Comment

cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  | cheap football shirts  |