http://portugues.uol.com.br/literatura/romance-policial.html

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Diz-se que um romance policial – detetivesco, mais precisamente – pressupõe um crime, uma vítima, um culpado e, claro, um detetive (seja ele profissional, como de regra, ou amador). O detetive nunca é o culpado (ou, pelo menos, nunca deve ser). Ele e o leitor devem ter a mesma chance de descobrir o criminoso. Evitando trapaças, o mistério deve ser explicado de uma maneira plausível. A intriga amorosa ou discussões filosóficas mais profundas não compõem o centro da trama. Este é ocupado pelo crime e o seu entorno. Outras regrinhas podem ser exigidas, mas mesmo essas aqui explicitadas, consideradas pelos entendidos como caracterizadoras do gênero, podem ser suavizadas em prol de uma boa estória.

Via de regra, os entendidos gostam de classificar esses romances em (i) policiais de enigma e (ii) policiais noir. Também são classificados, respectivamente, em policiais ingleses e policiais americanos, levando em consideração os países onde esses dois subgêneros teriam “nascido”.

Da Inglaterra, que talvez seja o país onde o romance policial mais se desenvolveu, na categoria de policiais de enigma, vêm, por exemplo, as aventuras de Arthur Conan Doyle (1859-1930, escocês de nascença) com o seu Sherlock Holmes e de C.K. Chesterton com o seu Father Brown. E, claro, a minha amiga Agatha Christie (1890-1976), com os seus impagáveis Hercule Poirot e Miss Marple, por muitos considerada a quintessência do romance de enigma. São tantos os títulos da minha amiga – “The Mysterious Affair at Styles” (1920), “The Murder of Roger Ackroyd” (1926), “Lord Edgware Dies” (1933), “Murder on the Orient Express” (1934), “Murder in Mesopotamia” (1936), “Death on the Nile” (1937), “Ten Little Niggers” (1939), para ficar apenas em alguns de minha preferência, todos já devidamente publicados no Brasil – que ela é considerada hoje o terceiro escritor mais traduzido no mundo (perdendo apenas para as muitíssimas edições da Bíblia e para as obras de Shakespeare) e, se não bastasse isso, o primeiro lugar em termos de vendas. Nos romances acima referidos, quase todos protagonizados por Poirot, o leitor é “convidado” a desvendar o crime. Ele segue os passos e o raciocínio do detetive através de um jogo de pistas e charadas até o final, em regra, surpreendente. Pode-se dizer que a trama é, de fato, o mais importante da estória, muito mais que o ambiente em que ela se passa (via de regra, o ambiente das estórias de Agatha Christie é muito “saudável”, como a alta sociedade londrina, pequenas cidadezinhas inglesas ou o pitoresco oriente próximo).

Já dos Estados Unidos da América vem, como clássico do policial noir, Raymond Chandler (1888-1959), com o seu detetive Philip Marlowe, em romances como “O sono eterno” (“The Big Sleep”, 1939), “Adeus, minha adorada” (“Farwell, My Lovely”, 1940) e “O longo adeus” (“The Long Goodbye”, 1954). Dalí também vem Dashiell Hammett (1894-1961), com o seu “O falcão maltês” (“The Maltese Falcon”, 1930), protagonizado pelo detetive Sam Spade, livro que está em minhas mãos agorinha mesmo para uma releitura. Considerados como os fundadores do policial noir/americano (seguidos por outros gigantes como Ross MacDonald e James M. Cain), Chandler e Hammett, em suas estórias, muitas vezes adaptadas para o cinema, nos apresentam um mundo estranho – embora muitas vezes verdadeiro – de dinheiro abundante, casamentos falidos, destruição pelo álcool, fêmeas fatais e assassinatos, tudo isso misturado a um aparelho policial e judicial corrupto, que é enfrentado pelos seus detetives durões. Aqui, “atmosfera” na qual estão inseridas as personagens, carregada, noir, é tão ou mais importante do que a trama em si.

Alguns autores, é bom que se diga, transitam com igual familiaridade entre o policial de enigma e o policial noir. Georges Simenon (1903-1989), de quem venho falando nas duas últimas semanas, com os seus “Maigrets”, é perfeito exemplo disso. Simenon/Maigret, que isso fique bastante claro, sempre nos “convidam” a desvendar o crime. Seguimos os passos do detetive e as pistas deixadas pelo autor. Mas, para Maigret, o detetive de Simenon, a atmosfera do local do crime e as peculiaridades das condutas e da psicologia dos envolvidos são fundamentais para desvendar o mistério. Nas suas aventuras, em regra ambientada no submundo de Paris, o Comissário Jules Maigret dá de cara com réus, vítimas e testemunhas, homens e mulheres, de todos os tipos. As personagens, muitas vezes, são crianças e jovens carentes, mal encaminhados na vida, que mais tarde se tornam criminosos. Gente infeliz, que odeia a sociedade e a culpa por tudo de mal nas suas vidas. Em “Um engano de Maigret” (“Maigret se Trompe”, 1953), que acabo de ler em edição da Abril Cultural de 1984, por exemplo, o Comissário topa com gente “de todas as raças, de todas as idades, que à noite, como ratos, saíam de seus buracos e se arriscavam” por aquele lugar, a nordeste de Paris, “uma selva de pedra, onde um homem pode desaparecer durante meses, onde não raro só se ouve falar de um crime semanas depois que foi cometido; onde milhares de seres, homens e mulheres, vivem à margem da lei, num mundo em que encontram todos os refúgios e cumplicidades que desejarem e onde a polícia de tempos em tempos dá uma batida, prende por acaso alguém que procurava, mas só por causa do telefonema de uma prostituta ciumenta ou um alcaguete”.

A pergunta que fica é: você, leitor, o que prefere, enigma ou noir?

De minha parte, gosto dos dois. Separados, juntos ou misturados.

Marcelo Alves Dias de Souza

Procurador Regional da República

Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Mestre em Direito pela PUC/SP

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